sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Fronteira


Aquela personagem do seriado se parece muito comigo. Nas confusões, na previsibilidade das ações e reações, no medo da perda, na necessidade de ter sempre o coração e a mente ocupados, na simplicidade, no choro e no sorriso. Às vezes, até nos raros atos de loucura. Como eu, também sente a necessidade de se reinventar.
Uma vida inteira no mesmo lugar, falando as mesmas palavras, vendo as mesmas pessoas, num círculo que causa tédio até em quem ouve. O desejo de mudança lhe dá taquicardia. Mas não se identifica com as mudanças... E quando aconteceram, vieram todas numa sequência frenética, como se a urgência de se realizarem fosse a mesma de quem ama a vida e acabou de descobrir que o mundo vai acabar amanhã. Nesses momentos, deixou-se levar pelas águas e pelos sons. E, de novo, voltou a ser o que sempre foi.
Também não aprendeu ainda que não se pode planejar tudo. Erra, apanha, sofre, bate sem querer e quando quer, magoa e se magoa. Por sorte, tira algo de proveitoso para o futuro: uma lição. Conhece gente nova, mas sente falta da que deixou pra trás; no tempo e na estrada. Jamais perdeu contato e mesmo depois de longos períodos afastados fisicamente, os reencontros sempre têm um gosto de continuidade. Como essa música que coloquei pra tocar enquanto escrevo. Não tem letra, mas vocês precisam ouvir com atenção a história que traz consigo. Cada uma diferente, de acordo com quem ouve. Pode ser da infância, de um namoro, da paisagem vista pela janela durante uma viagem, da ansiedade pelo futuro. Ou de tudo isso ao mesmo tempo e tudo o que mais couber nela.
Ah, e por falar em música, a sua vida tem uma trilha sonora que se renova a cada temporada. Uma música por estado de espírito. Gosta de sentar num local onde possa passar horas observando e ouvindo o mar. Lá, já discutiu, gritou, consolou, procurou saber como foi o dia e o que pensa sobre a vida daqui a alguns anos. Tudo isso, sem a companhia de outra pessoa. Fala para si. E para encerrar a conversa, levanta-se, caminha um pouco e joga tudo na areia para que a próxima onda leve o que não faz bem. Volta leve pra casa.
Conseguiu organizar o tempo que tem e o que as outras pessoas cobram. Estuda, corre, sai pra se divertir. Hoje, diante de um desafio, encheu a cara, subiu no palco e cantou um rock. Recebeu aplausos, recusou uma carona e voltou pra casa a pé e só. A imagem escureceu, a música acabou e os créditos subiram. Espera que amanhã, talvez, a rotina lhe traga um episódio diferente.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

RodoVida

Agora ando devagar por esta longa estrada.
Não consigo enxergar a linha final,
Mas sei que correr de nada adianta,
A não ser fazer com que eu desista pelo cansaço.
O tempo passa por mim a cada passo
E eu sequer olho para o relógio.
Sigo sem pressa.
Nem sempre a linha foi reta.
Errei o caminho inúmeras vezes
E sei que outras esquinas ainda vão me desviar.
Bom saber que sempre volto à via correta.
Melhor ainda é saber que sempre alguém me espera,
Seja velha conhecida ou não.
Por vezes, encontro a mim mesmo.
Numa pausa, converso e bebo água.
Dizem que é um excelente remédio.
Os tropeços, o sol forte, os pés calejados,
Não me preocupam mais.
O sono deixou de ser fundamental.
Equanto eu desando a andar,
A lua me segue, a música me reforça,
O suor limpa a poeira dos olhos.
Chega a arder, mas sei que é para o bem.
Não sei por que ando na direção contrária de tantas pessoas.
Talvez goste de contrariar o senso comum.
Também pouco adianta escolher horário e anti-horário.
Mais cedo ou mais tarde, o sol vai bater na sua cara
Lembrando que a Terra é redonda,
Que por mais que pareça nublado, ele brilha,
Que ainda virá muito chão pela frente.
O tráfego me ensinou um conselho importante:
Vez por outra, pare, pense e volte a seguir em frente!

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Desconexo

Levanto, lembro
tento trabalhar, me distraio
Uma imagem que perturba
Fui atravessar com o sinal fechado
Quase fui atropelado
Saí ferido do mesmo jeito
Sinto saudades
Choro
Ouço música, vejo filme
Mas o cheiro me persegue
Ou sou eu quem não quer largá-lo?
Escrevo, apago
O texto me vem à memória
E me impressiono
Tento escrever novamente
Não passam das primeiras frases
Será que um texto pode ser tão curto?!
Deito na cama e tento dormir
Viver é fácil com os olhos fechados?
Não acredite nos Beatles!
Agora, vou dormir que estou cansado
Amanhã, certamente, a rotina me achará.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Aventura...



Andei visitando o mar esses dias e me perdi. Mas não foi por falta de conhecimento. Foi pela escuridão. Arrisquei deitar na areia de braços e coração abertos e fui de encontro às águas. Entreguei-me às ondas que, ao invés de refrescar o calor, me fizeram mais quente. Perdi-me nelas, num perigo iminente. Nas mãos, metade daquela areia que tanto queria segurar, escapava. A outra porção me permitia acariciá-la; sentir a sua textura. Ouvi um som que não existe em nenhum outro lugar. Mas logo a maré baixou, a água se foi e minhas mãos já estavam limpas novamente. Adormeci sem ver a imensidão do azul. Faltou luz e não havia o dia pra abrir os meus olhos. Do mar restou só o cheiro, que guardo com um misto de saudade, esperança e dor.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Vida e arte

Tudo e todos ao redor, anulados. Na sala de aula, um do lado do outro. Mãos que, aos poucos, caminhavam para um encontro. Ao toque, um levantar perfeitamente sincronizado dos pêlos, num arrepio denunciador. Uma música lenta e envolvente completava a cena. Se isso não for paixão, amor, o que vem a ser?
Tento descrever toda a beleza da situação mostrada num episódio da polêmica série inglesa Skins, mas creio que só as palavras não são competentes o suficiente para relatar literalmente sentimentos sem tradução de um jovem casal.
Mais do que apenas ver a cena, eu a senti, relembrei, revivi. A ficção de vidas encenadas cumpriu o seu papel de passar verdade ao erguer os pelos dos meus braços, me fazer ouvir aquela música e sonhar com um passado distante.

domingo, 11 de abril de 2010

Retorno

Uma analogia com a rotina de um relógio explica bem o que se passa agora. No objeto, o número 12 marca o final de um dia e começo de outro. E há quem pense que isso é invariável. Mas os ciclos nunca são iguais, ainda que estejam próximos. O relógio não é exato. A cada volta, perde-se uma fração do tempo. O motivo disso pode ser desde falha na produção até a energia de uma pilha que está no fim.
Estou na marca 12 agora. Mas, ao contrário da máquina, que avança pra frente, voltei para um mesmo ciclo. A cena de um sonho que vez por outra volta a invadir o sono se transporta para a realidade. Pela janela, observo uma paisagem repetida e entediante, agravada pela sensação de que já passei por alí alguma vez e não gostei nada do que vi e senti.
Minhas pilhas estão fracas agora. Mesmo querendo caminhar na velocidade normal, algo me prende a um ritmo que não é o meu. Desregulado, tenho a impressão de que meus ponteiros se revezam num constante avanço e recuo, que em alguns momentos resulta numa parada.
Vivo, falo, penso, faço, sinto a mesma coisa. Estou no mesmo ambiente, com algumas daquelas mesmas pessoas, em situações semelhantes. Um ou outro detalhe muda, menos eu. Não tenho como acertar meus ponteiros. O relógio está alto demais e não consigo alcançá-lo. Você pode pegá-lo pra mim?

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Caminho inverso

Os primeiros a falar foram os olhos. A intensidade deles permitiria que até um crime fosse denunciado num único olhar. Mas não soube ler... Depois, eles fugiam ágeis e repentinos. Eram outros códigos, também não decodificados.
Aí foi a vez de a pele procurar uma conexão, como se apenas num toque, impulsos elétricos fossem levados ao cérebro para que a comunicação de algo importante fosse bem sucedida. Mas um campo de força barrava a todo instante o que queria dizer; gritar.
E agora são as palavras que tentam passar uma das mais simples mensagens. Afinal, o que seriam delas se não fosse a multiplicidade dos significados? E de nós, se não pudéssemos atribuí-las sentidos que não constam sequer nos dicionários? Metáforas, "indiretas", ironias, expressões revestidas de sentidos, mas nenhuma delas apreendidas da forma que deveriam ser.
Sofro de falha de comunicação, uma das mazelas das quais procuro fugir diariamente no meu trabalho. Só que não falo de ofício. Consigo estabelecer comunicação com toda uma “massa”, no entanto um mero diálogo se configura numa gigante pedra bem no meio de uma estrada sem área de escape. Trabalho, como jornalista, mas às vezes sinto uma falta danada de ter aprendido um pouco que fosse a arte de escalar obstáculos. Quem sabe só assim, conseguiria avançar no caminho...

sábado, 26 de dezembro de 2009

O começo?

Choveu ontem aqui. E eu, sob um pretexto barato, fui para fora de casa, abri os braços, ergui o rosto e me permiti ser atingido pelas já raras gotas. Fazia calor, mas não era pelo calor que fui até ela. Precisava ir. Mais do que apenas vontade, era necessidade. O que eu procurava? Respostas. Mas ela se foi antes que eu a sentisse, que o meu rosto se molhasse, que eu terminasse de fazer a primeira - e única - pergunta.
Por vezes tenho a impressão de ter sonhos repetidos, mesmo com a "liberdade poética" inerente ao plano da abstração. Estou num desses agora. E até poderia saber como agir para não ver um final repetido. Mas não sei. Apesar de a situação não me ser estranha, alguns personagens mudam e têm o poder de dar outro ritmo e caminho às cenas. Aprendi que ninguém é diretor do próprio sonho.
Também sou ator. Minhas palavras, decisões, olhares, gestos, contam no enredo. Mas, assim como na realidade, são minúsculos diante de um todo mais complexo. Relações. Laços que se misturam, às vezes dando origem a nós que apenas o tempo e vento desatam. Ou não.
Dessa história já vi um final. O que posso fazer é tentar voltar quantas vezes forem necessárias e viver o sonho repetido até chegar a uma certeza. E torcer para que o anterior não tenha sido um déjà vu.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Marcas

Aquelas mãos enrugadas representaram uma espécie de espelho do futuro. Serviram para chamar a minha atenção de que o tempo passa e que não pode ser desperdiçado. Que não devo mais deixar de dizer aquela palavra presa na garganta, de olhar para onde pode estar a minha felicidade, de esconder sentimentos como se eu fosse indiferente a tudo.

É impressionante como um simples olhar atento consegue ver além do que a obviedade permite. Ou uma audição mais atenta também. Hoje, por exemplo, voltando de João Pessoa para Campina Grande, escutei de um ex-professor no ônibus: "De uma hora pra outra, todo mundo se dispersa." E não é que é verdade! Ele se referia às turmas da faculdade. Quando penso um pouco nisso, percebo que não vejo mais quase ninguém da famosa turma "Imprensa que é gostoso!". Foi esquecida até a vontade que tinha de reunir todo mundo para um encontro anual. Fez-me lembrar de novo...

Indo mais além, também não vejo mais nem os meus amigos de infância! E dispersaram-se todas as outras turmas de que fiz parte. Assim como se dispersarão as que hoje faço parte. A quebra das linhas e laços geográficos são naturais... Mas totalmente reversíveis.

Um dia minhas mãos vão ficar daquele jeito: sem a elasticidade da juventude e cheias de marcas de uma vida. Que sejam boas as lembranças gravadas nelas, pelo menos...

sábado, 7 de novembro de 2009

Alarme

De repente, vi que era um sonho.
Inclusive a sensação de bem-estar.
Foi tão bom, que tentei voltar.
Mas o sono não vinha e nem o sonho.
Bem que poderia continuar comigo acordado.
Estiquei o quanto pude.
Aproveitei-o ao máximo.
Quem dera se estivesse ao meu controle.
Não acordaria tão cedo...
Oito horas num final de semana de folga?!
Não agora!
Percebi que é ruim sentir saudade do que não se tem.
A realidade bem que poderia ser igual a noite de ontem.
E quem disse que não pode ser?
À luta!