Aquela personagem do seriado se parece muito comigo. Nas confusões, na previsibilidade das ações e reações, no medo da perda, na necessidade de ter sempre o coração e a mente ocupados, na simplicidade, no choro e no sorriso. Às vezes, até nos raros atos de loucura. Como eu, também sente a necessidade de se reinventar.
Uma vida inteira no mesmo lugar, falando as mesmas palavras, vendo as mesmas pessoas, num círculo que causa tédio até em quem ouve. O desejo de mudança lhe dá taquicardia. Mas não se identifica com as mudanças... E quando aconteceram, vieram todas numa sequência frenética, como se a urgência de se realizarem fosse a mesma de quem ama a vida e acabou de descobrir que o mundo vai acabar amanhã. Nesses momentos, deixou-se levar pelas águas e pelos sons. E, de novo, voltou a ser o que sempre foi.
Também não aprendeu ainda que não se pode planejar tudo. Erra, apanha, sofre, bate sem querer e quando quer, magoa e se magoa. Por sorte, tira algo de proveitoso para o futuro: uma lição. Conhece gente nova, mas sente falta da que deixou pra trás; no tempo e na estrada. Jamais perdeu contato e mesmo depois de longos períodos afastados fisicamente, os reencontros sempre têm um gosto de continuidade. Como essa música que coloquei pra tocar enquanto escrevo. Não tem letra, mas vocês precisam ouvir com atenção a história que traz consigo. Cada uma diferente, de acordo com quem ouve. Pode ser da infância, de um namoro, da paisagem vista pela janela durante uma viagem, da ansiedade pelo futuro. Ou de tudo isso ao mesmo tempo e tudo o que mais couber nela.
Ah, e por falar em música, a sua vida tem uma trilha sonora que se renova a cada temporada. Uma música por estado de espírito. Gosta de sentar num local onde possa passar horas observando e ouvindo o mar. Lá, já discutiu, gritou, consolou, procurou saber como foi o dia e o que pensa sobre a vida daqui a alguns anos. Tudo isso, sem a companhia de outra pessoa. Fala para si. E para encerrar a conversa, levanta-se, caminha um pouco e joga tudo na areia para que a próxima onda leve o que não faz bem. Volta leve pra casa.
Conseguiu organizar o tempo que tem e o que as outras pessoas cobram. Estuda, corre, sai pra se divertir. Hoje, diante de um desafio, encheu a cara, subiu no palco e cantou um rock. Recebeu aplausos, recusou uma carona e voltou pra casa a pé e só. A imagem escureceu, a música acabou e os créditos subiram. Espera que amanhã, talvez, a rotina lhe traga um episódio diferente.